Wednesday, December 02, 2009

Muse - The Resistance


É um problema que Matthew Bellamy queira ser Freddie Mercury e Brian May ao mesmo tempo? Guardadas as devidas proporções de êxito, não necessariamente: e o Muse acerta o alvo muitas vezes nesse disco seguindo essa pretenciosa empreitada. Outras vezes, nem tanto, em especial no final do disco, quando eles encarnam o Pink Floyd do “disco da vaca” e se concentram em suítes ao piano meio sonolentas.

Em se tratando de um disco do Muse, a pergunta nunca é se o disco é bom ou não – porque é óbvio que é bom – mas se é um tão bom Muse desde Absolution – onde temática e sonoridade se tornam coesas mais do que nos álbuns anteriores, e a fúria que vem desde o primeiro disco não se perde em meio as veleidades progressivas de Bellamy. É disso que eu, saudoso, sinto falta neste ultimo excelente álbum. É impossível querer de volta a fúria e a angustia do segundo álbum, Origin of Simmetry – meu favorito deles, merecedor de um post futuro. Mas a turma de Matt, ao contrário do que faz no bem medido Black Holes and Revelations na relação peso/melodia (onde a ponderação é feita milimetricamente), nesse Muse está lírica e domada demais. Ser Freddie Mercury e Brian May, realmente, tem o seu preço, e o preço é caro.

Tuesday, November 17, 2009

This Picture - Placebo

I hold an image of the ashtray girl
Of cigarette burns on my chest
I wrote a poem that described her world
And put our friendship to the test
And late at night whilst on all fours
She used to watch me kiss the floor
What's wrong with this picture?
What's wrong with this picture?

Farewell the ashtray girl
Forbidden snowflake
Beware this troubled world
Watch out for earthquakes
Goodbye to open sores
To broken semaphore
You know we miss her
We miss her picture

Sometimes it's faded
(We) Disintegrate it
For fear of growing old
Sometimes it's fated
(We) Assassinate it
For fear of growing old

Farewell the ashtray girl
Angelic fruitcake
Beware this troubled world
Control your intake
Goodbye to open sores
Goodbye and furthermore
You know we miss her
We miss her picture

Sometimes it's faded
(We) Disintegrate it
For fear of growing old
Sometimes it's fated
(We) Assassinate it
For fear of growing old

Hang on
Though we try
It's gone
Hang on
Though we try
It's gone

Sometimes it's faded
(We) Disintegrate it
For fear of growing old
Sometimes it's faded
(We) Assassinate it
For fear of growing old

Can't stop growing old...

Sunday, November 01, 2009

Abotoaduras de 1,99

Há várias formas de olhar para o caminho, o início, e o fim. Ela o abraçou na frente da estátua de Cristo, ambos pairavam a figura, na praça da igreja. Havia paz. Ela disse que ia fazer um pedido. Ele pensou que aquilo era meloso demais admitir fazer ali, ele homem. Ela fechou os olhos: pedia para ficar com ele de vez, não aquela coisa implícita de vamos ficando. Ele continuou encarando Cristo, o poder.

Ela disse que nunca lhe dissesse quando começasse um novo namoro. Era o único favor que lhe pedia, seria demais? Ele cumpriu a promessa.

Ela ria uma risada gostosa, dele atrapalhado. Às vezes ele se irritava com isso. Mas só às vezes.

Ela nunca entendeu o vazio dele. Porque ela é uma pessoa cheia, ele sempre soube, culpado. Ele nunca se encheu com alguém, mas se permitiu preencher alguns, irresponsável. Pelo menos acreditou nisso. Ele acredita.

Ele não pediu, reciprocamente, que ela nunca lhe dissesse quando começasse um novo namoro. Não achava necessário. E agora? Agora, isto: o fim do fim, no fim, é barulhento como uma criança mimada, e não se cala na escuridão dos sentimentos abotoados. Mas se afoga, afinal.

Wednesday, October 28, 2009

Got to get you into my life

Vinha eu errando aqueles ortodoxos pensamentos, tortos de ansiedade e cansaço; eu a deixei entrar por uma fresta que então se intumesce dilatada, sólida quase nada, verdade que borbulha incenso, recomeça do começo aquilo que não tem fim certo – bom! -, e então estamos todos pertos o bastante e felizes e risonhamos divertidos a náusea sóbria, com gargalhadas erráticas randômicas; pairamos no ar angelicamente, como santos, ingênuos matutos, espertíssimas sacadas respiram, sacações ornitorrincas onomatopéicas borbulham de antros íntimos nossos, desencontrados em nós, até que... Fôlego! E o engraçado que sempre deveria ter sido o óbvio agora obviamente engraça nossa sobranceira razão cotidiana, é pateta, pateta o que resta quando o que não faz sentido torna-se o sentido sentido, e o ‘sentido’ é uma piada racional que vai-e-vem e nos cala o sorriso por 5 segundos às vezes, junto silêncio – 5 segundos, não mais, digo-te! – ris-te, vejo-te rir, rio, rio leva-nos e nós estamos putos! – mas, estamos cagando e andando, né, vocabulário e metáforas desencontradas sem sentido não faltam – e daí? – lambo os beiços e comemos e contamo-nos a miséria das nossas vidas com humor, às vezes a realidade pinta sinapticamente teimosa rebelando novo contexto, no meio, de novo, e nós nos calamos até que uma besteira prosaica que eu ou você digamos chute a bunda real para fora – não sem risos, não sem risos – e nossos castelos de areia se mantém diante da nossa argumentação persuasivamente lírica, sincopada, sensual dos sentidos, musical, então ouvimos música com fome, como não ouvimos desde a primeira e até a próxima e ouvimos algo bem ruim mesmo, mas o podre nostálgico – porque rir não era a idéia, porra? – e eu te ofendo de brincadeira porque essa é minha especialidade para com meus amados, você desvia os olhos no firmamento como se aquela pedra não te batesse digesta e ficasse interrogativa, um vento, eu rio, eu explico, você finge que liga, mas acha graça de mim e você – e nós somos tão carne engraçada, mire! – Eu peco desculpas, você diz “Que isso!” - o jogo é o tatear pateta, não porque sejamos pateta, agora tão sábios – o patético já desanuviou-se em névoa e é senso comum agora, sabia? – e você abre seu peito cheio de dores densas, infinitamente profundas, sem sentido, irracionais, mequetrefes, e eu te ofereço em troca motivos mais palhaços ainda com ar de doutor, para rir de meus raciocínios tortos e desastres – desastres com as coisas mesmo viu, com copos que eu não sei lavar sem quebrar, pois que toda matéria se revolta sob meu domínio, mandona – ‘Eu racho o bico com você, cara”, você rachando o bicho, rachando, Juninho! - eu compro o jogo e racho o bico de mim. E matamos o dia. Menos um.

Saturday, October 24, 2009

That feeling occurs me now I see you

"I remember one morning getting up at dawn, there was such a sense of possibility. You know, that feeling? And I remember thinking to myself: So, this is the beginning of happiness. This is where it starts. And of course there will always be more. It never occurred to me it wasn't the beginning. It was happiness. It was the moment. Right then."

Tuesday, October 20, 2009

She.

Wednesday, October 14, 2009

Why do I keep fuckin' up?

Mindless drifter on the road
Carry such an easy load
Its how you look, and how you feel
You must have a heart of steel.

Why do I keep fuckin up?

I can see you on a hill
Comatose but walking still
Curves beneath your flowing gown
Only I could bring you down.

Why do I keep fuckin up?

Dogs that lick and dogs that bite
Hounds that howl through the night
Broken leashes are all over the floor
Keys left hanging in a swinging door.

Why do I keep fuckin up?

Keep fuckin up!

Saturday, September 19, 2009

Escadas e Corrimões

Monday, August 31, 2009

Junho, 2003

Eu estava pensando na ironia do destino e na gratuidade da vida até que... me entediei e resolvi ouvir Beatles. Tirei uma garrafa de 88 que eu escondo no armário do meu quarto e derramei o álcool na xícara, enquanto a vitrola soava I Feel Fine. É melhor pensar com eles fazendo efeito. Quando o álcool escorrega em minha garganta, geralmente eu estou tão sufocado pela vida asfixiante que ele me faz sentir bem ao me libertar... ao me afastar cambaleante da realidade árida. Das pessoas distantes. Do mundo hostil. Dos pensamentos saturadores.

Meia hora depois. Ticket to Ride. Os goles de 88 não queimam mais – minha garganta está finalmente anestesiada, alguns sentidos também, mas ainda estou lúcido. Beatles foi uma das primeiras coisas de róque que eu ouvi. Ainda me lembro como foi – quando eu era menino, uns 9 ou 10 anos, costuma gravar fitas dos programas que eu ouvia no rádio. Um especial de Beatles me introduziu no mundo dos cabeludos ingleses. Eu fiquei fascinado. Então por todos os cantos da casa eu e minha fita velha de 60 minutos entoávamos os besouros e perturbávamos mãe, pai e vizinhos com a minha vozinha exaltada infantil. Eu era eu, feliz da vida, cantando meu inglês imaginário – xi ovés iuu ié, ié, íe.

Help, I Need Somebody. Aquela semi-euforia típica flutua, minha língua coçando. A vodka era mais cruel, geralmente arrebatava o mundo, a música e meu coração partido em poucos minutos, e éramos todos então – tudo regurgitando e sucumbindo adormecidos. A pinga amarela é mais... tolerante, ocupa aos poucos, subjuga suavemente. É mais barata também. I don’t care too much for money, money can’t buy me love. Me lembro da minha primeira namorada, que eu nunca beijei. Nem peguei na mão. Só olhava furtivamente seus lindos olhos negros, enquanto brincávamos juntos. Eu tinha 10 ou 11 anos, mais ou menos (eu não sou bom em datas: não sei o dia da proclamação da República, o ano da Revolução Francesa, o início ou o término da Guerra Mundial. Mas e se toda a história não passar de ilusão da Matrix?). O nome dela era Lílian – branca como uma vela, longos cabelos pretos lisos e grandes olhos rápidos que me vigiavam em silêncio. Éramos tímidos. I know this love of mine, will never die, And I love her. Jogamos damas juntos na minha casa. Eu perdia todas – eu sempre perco para as mulheres, e ela era só uma menina.. Apanho ainda mais das adultas. Eu era amigo do irmão dela, será Vinícius o nome dele? Não lembro. Eis que um dia eu brigo com ele, e meu romance implícito nas entrelinhas com Lílian acabou, sem adeus, despedidas, beijos ou lágrimas – acho que ela não conhecia os Beatles. Um mês depois ela voltou para Minas, para sua casa, para longe. Eu a esqueci rápido; quando se é moleque, há coisas muito mais importantes para se pensar do que em paixões ou meninas.


Michelle, ma belle. Minha língua parou de coçar, e eu salivo muito. Bem-estar. Quando eu era menino me apaixonava fácil: minhas primas, minhas vizinhas, minhas colegas de escola... Como hoje. Ah, Deus, aquela moça do ônibus com piercing no nariz e voz grossa sexy... Distante como o céu. Paperback Writer. Eu bem poderia me deitar com minha mochila embaixo daquelas árvores que ladeiam o RU e tirar uma soneca antes do almoço – porque eu nunca fiz isso? Porque a natureza é confortante, mas as pessoas incomodam – muitas pessoas, o problema do mundo. E aquele suco ácido... mas não tem mais, só água, só abelhas. Os gatos é que são felizes, exceto quando estão no cio. Deus, como gosto de gatos.

Ah, look at all the lonely people. Eu acho que elas esperavam que eu tivesse dito algo, naquele momento. Que eu tivesse acenado com o olhar. Que eu tivesse me aproximado, de alguma forma. Confessado sentimentos, espelhado sentimentos, simpatia, interesse. Mas eu fingi estar alheio. Mas eu fingi não perceber, esperando e hesitando, medo da recusa. Eu me refugiei na solidão segura, segura, sem dor. Eu escolhi. É o meu caminho.

Day Tripper. É o fim melancólico e bêbado que se aproxima, meu amigo. In the time, that I was Born – a confusão do tato. In a yellow, submarine. Onde todos vivemos. Eu podia ter um time de futebol, podia jogar futebol pelo menos. Podia caminhar, sentir o cheiro das árvores, o cantar dos passarinhos, a natureza acolhedora. Como é bom o cheiro do mato molhado. A vida inebriante fazendo barulho fora do meu quarto. Enquanto a banda começa a tocar, você não tem mesmo coração. Aí parada me esperando sem esboçar sinal. Cruel. Eu vou ficar aqui fingindo te ignorar pensando em você todo o tempo, porque eu não quero mesmo me machucar, e porque meus tombos são destrutivos, e porque o resto do mundo se compraz com meu sofrer desastrado. Eu já andava antes de vocês, e sem a presença de vocês! Eu não preciso de ninguém. Eu não preciso de ninguém. Eu não preciso de ninguém. EU NÃO PRECISO DE NINGUÉM!! Ela disse: você é mesmo esquisito. Quem? Chove lá fora e aqui dentro, faz tanto frio... Remember I always be true. Aquele escritor alagoano disse uma vez em algum lugar que devemos guardar nossos defeitos com carinho, porque eles são nosso único traço verdadeiro de personalidade; eu digo que sem nossos defeitos nós somos um número ímpar no registro da previdência social. Eu sempre achei o bem com seus bons bastante babacas, gosto dos vilões solitários de novela que vão para o inferno sentar no colo do capeta e bebericar enxofre. We all live in the yellow submarine – preciso esvaziar minha xícara, já é quase quatro e meia, há um sexto de líquido oscilando brilhante e convidativo na garrafa. There’s a shadow hanging over me. Now I long, for yesterday.

Sunday, August 30, 2009

Mázinha.

Saturday, August 29, 2009

Agosto

A luz embaçava sozinha, enquanto a brisa solene do dia entrava por frestas descuidadas. A fumaça já dormia. Ele acordava semi-vivo, rachado. O som era distante, uma miragem eletrônica; o sol sapateava ritmos na janela. Ele sai do quarto e conquista o espaço imóvel do lá fora. O corpo tateia aventura até o banheiro; barulho matutino. Ele procura as chaves enquanto o mundo chacoalha, o bolso tilinta um chaveiro, a lata cintila: ela abre a porta pra ele. Buzina, acorda. As estações cantam em orquestra luzes artificiais e rostos rotos de sono da manhã paulistana reclamam do dia longo já. As portas açoitam e escolhem nos vagões, backing vocals. Os olhares dos trabalhadores assentem realidade e rotina na Barra-Funda. O trem é uma marmota preguiçosa. A cidade é feia, o cheiro é ruim, o som é barulho. A comida é um veneno caro. As distancias são pequenas para as horas, que são ralas e custam muito dinheiro, toda a carteira. As pessoas se sincronizam em mp3, entoam passos com headphones. O dia custa a morrer e se vai, afinal, esfriando, deixa a poluição etérea lhe confundindo, ele confunde as chaves, a fumaça se deita pra um novo dia, a luz se apaga até amanhã.

Thursday, August 27, 2009

A paz (jan 2003)

O silêncio
O escuro
O nu abandono.
É quando você ri de sua miséria em frente à lareira,
Quando você desafia o mundo enrolado no cobertor,
Embora não consiga encarar os olhos alheios de frente,
E não possa enfrentar de pé
Aquilo que te ressente.
Trôpego,
Bêbado bandido,
Você gargalha de suas desgraças.
Blasfema alto nas praças, dedo em riste
Desafia o desalento então, rijo, e forte
Entrega sua alma à desventura da sorte
Se engana.
Mas permanece inteiro, enfim.
Na mentira,
No sussurro,
Na garganta embriagada,
Na ironia,
No rosto que foge, se oculta e se cala.
Aí você vive recluso e intocado.
Mas você está morto, no fim.
Calado.
Morto. Para sempre.
Você está morto e calado.
Eu não tenho pena de você.

Tuesday, August 11, 2009

Tupi-indie

Saturday, August 08, 2009

Germânia

Friday, August 07, 2009

Eu culpo a sociedadede.

- Por aqui nada novo... Continuo pensando em uma forma de me mudar sem precisar trabalhar...
- Enfrento o mesmo desafio diariamente. A sociedade parece relutante em me sustentar sem contrapartida, entretanto.
- Eu não compreendo isso !!!
- Não está claro que somos especiais? Todos querem se sentir úteis. Não podemos ser sustentados pelo resto da sociedade civil que trabalha? Nossa função seria existir para que eles pudessem nos apontar como inúteis e se sentirem melhor consigo mesmas!
- Para mim, deveria ser senso comum.

Thursday, August 06, 2009

Ironia.

- Really?
- Afeto?
- Ironia.
- Ironia é uma coisa complicada... no terreno da retórica, é como colocar só a cabecinha. Se você nao sente, tá fudido...
- Cala a boca.

Sunday, August 02, 2009

Sábado à noite tudo pode mudar

- Há muitas pessoas na minha lista do Messenger, ficando o sábado em casa. As pessoas não são felizes como querem que acreditemos que elas são. Nesses momentos, eu sinto "A Náusea" da existência.
- As pessoas não podem ser felizes, sozinhas, em casa?
- Claro que podem, mas é pecado, segundo a tradição judaica.
- O quê?

Monday, July 27, 2009

Reminiscências

Quando volto para minha belíssima cidade natal é comum eu me prender em “armadilhas” de reminiscências. As reminiscências ficam guardadas na estante do meu quarto antigo: um monte de cadernos e desenhos. Eu vou lá, vasculho, aí fico todo saudoso. O passado era uma merda quando eu o vivia, se bem me lembro. Eu ficava esperando as melhorias possíveis do futuro (hoje). Eu estava sempre insatisfeito, como sempre insatisfeito sempre estou. Mas olhar o passado me traz nostalgias róseas, e segundo um amigo isso tem uma explicação científica: o cérebro guarda o melhor das recordações anteriores como uma forma de preservar o ser humano. Se os grandes traumas não fossem amenizados ao longo do tempo – e levando-se em conta que estamos permanentemente suscetíveis a NOVOS traumas – a vida do ser humano seria consideravelmente mais caótica. Se os cientistas disseram, então ta certo, né.

Encontrei este “Mundialização e Cultura”, do Renato Ortiz, que eu li no segundo ano da graduação. Lembro que gostei muito do livro, que na minha vaga memória tem um discurso do tipo “há uma consciência mundial de cultura inevitável, que vem principalmente da hegemonia cultural americana, e não adianta espernear porque é assim em todo mundo, é natural por conta da quebra das barreiras internacionais e globalização, enfim, você conhece o Mickey Mouse e gosta dele”. Se é o que lembro, a idéia no fim é algo como “sem xororô, você gosta mais de Rolling Stones do que frevo porque [entra aqui os argumentos sociológicos complexos do autor].” Eu, na época com o espírito cheio de materialismo dialético marxista correndo no sangue vermelho, quando via a lutas de classes explicando desde a acumulação do capital até porque minha mãe não trazia mais danoninho pra casa, gostei muito do livro. Assim eu podia ouvir Rock americano ou inglês sossegado com minha consciência esquerdinha, e não se preocupar com a defesa contra o imperialismo cultural. Enfim, eu estava aliviado por não precisar ouvir frevo, chorinho, ou algo culturalmente intenso mas que eu posso muito bem passar a minha vida sem. Veja que ser de esquerda exige um razoável exercício de fé permanente para cobrir a tal das incoerências; acho que os religiosos passam por algo parecido.

Tem este “The Diamond as Big as The Ritz”, de Fitzgerald, que comprei em um sebo de Maringá em 2005. Nunca li. Lembrei do Great Gatsby, e por ora não estou muito inclinado às firulas de grã-fino (as melhores possíveis) do Fitzgerald, não. Tenho do mesmo sebo “Animal Farm”. Nunca li esse famoso do Orwell, mas como ele é figurinha fácil nos circuitos universitários e CAs da vida, e como eu já circulei razoavelmente bem por várias universidades, já sei toda a estória sem ter lido. O que eu realmente não entendo é porque estudantes esquerdinhas gostam tanto do Orwell: 1984 é uma alegoria não muito sutil do comunismo como um perigo potencial às liberdades individuais, Animal Farm tem uma sugestão anti-revolucionária, e o próprio Orwell era um notório conservador; ou seja, a história toda não entra bem no bolso de flanela dos meninos de boina.

Falando em esquerda, mexer com os meus livros velhos de sebo acionou uma crise alérgica. Se eu quero ler um dos meus inúmeros livros que comprei e não li, terá que ser os de livraria, não os de sebo. No momento Hornby e DH Lawrence disputam minha atenção. Como estou com preguiça de ler em inglês, acho que o Amante de Lady Chatterley me ganhou fácil. Ele deve ser bom mesmo, não?

Monday, July 20, 2009

Valeria

"O que você está lendo?" - ela se senta do meu lado e, e ao perguntar isso, o brilho de seus olhos fulminam meu olhar despreparado. Não conseguia encará-la de frente, ali. Uma pequena revolução acontecia em meus sentidos. Era talvez um início de papo trivial, mas porra, era ela, e eu não tinha nada em mente ensaiado. Mas tinha que responder:
"Ah, é Fernando Sabino" murmurei, engasgado com a atenção dela. E o olhar - meu Deus, como afligia meu espírito calouro aquele olhar que detinha tanta autoridade, essa esmagadora autoridade feminina que ela impunha com sua simples presença, naquele jovem trêmulo que eu era. Saberia ela disso que me fazia? Não estaria evidente em mim, palpitante? Enquanto isso, no cenário de fundo, os colegas de ginásio jogavam vôlei; nesses jogos os rapazes têm a oportunidade de mostrar sua habilidade, de fazer amizades, socializar. Quem é ruim demais para fazer parte dos times de jogadores fica na arquibancada, observando apenas. Eu ali estava - lendo o livro até aquele instante.
"Ham...", ela respondeu. E calou-se por alguns momentos. E o mundo e a minha respiração pararam eternamente nesses segundos de silêncio. Pensei que deveria dizer alguma coisa inteligente. Vamos lá, o que diz nessas horas, e como, se você é adolescente e elas são um furor que fascinam e amedrontam ao mesmo tempo? Alguma coisa antes que ela vá embora, talvez para sempre. Mas uma idiotice pode estragar o que não começou. Meu cérebro vazio, vazio - e a eternidade, e a inércia. Íntimo suave desespero. Tossi.
"E é legal?" ela insistiu.
Não, eu não devia responder com um monossílabo idiota. Talvez, com dois:
"É, legal.".
Então finalmente eu encaro seus olhos, rapidamente. Sinto vontade de perguntar se ela gosta de livros - a única coisa que eu pude pensar em dizer - e o cérebro apressada e desajeitadamente tenta articular palavras numa frase e mover minha língua e flexionar meu diafragma e vibrar minhas cordas vocais: uma pergunta coerente. Mas ela é chamada na quadra para jogar, e abandona com um aceno aquele estranho que gagueja respostas como se estas fossem reflexos físicos a impulsos voltaicos nos nervos. Observei-a juntar-se às amigas, soberana rainha de 14 anos: trejeitos de borboleta e perfume doce suado. O mundo e as coisas então retornaram ao seu curso normal. Olhei para minha única companhia, o livro abandonado no meu colo, e senti-me consolado: eu não estava completamente sozinho, afinal.

Thursday, July 16, 2009

Spleen & Tubercolose

Think, everyone that you kiss, do they cease to exist when you stop being missed? (Ladytron)

Eu preciso resistir à melancolia da noite
Eu preciso resistir ao encanto triste da lua
A agonia surda da vida
A injustiça da solidão permanente
A vida soluçando o sol na minha mente
Tudo que existe e vem à tona de repente
Rugidos que permeiam o ar, são meus
Tudo corre em seu lugar, entregue ao olhar de Deus.
A violência feliz do meu amor
Sua autoridade matriz no meu coração.
Eu preciso resistir à melancolia da noite
Que me assoma nesses dias parados
Onde os sorrisos decantados assentem somente aquilo que importa,
Quando a vida é só isso - é uma finalidade remota.
Eu preciso suportar o peso da rotina
Eu preciso desafiar a morte na esquina
Eu preciso acreditar em Deus
Nos ditos e feitos tortos meus
Tudo que jaz na lembrança, expurgado em nome
Da preservação útil da esperança
Da corrente que se quebra diariamente
E se constrói errada, e sempre, novamente.
Carne entorpecida, de preguiça distraída
Sorve o vento, espera o caminho aparecer com a saída.
Paciência, porque é preciso terminar este dia
E lutar contra a melancolia da noite
Contra as promessas de cansaço do dia seguinte
Contra os fracassos que se anunciam com o raiar do sol
Contra os brilhos de seus olhos no lençol
É preciso lutar contra o mau
É preciso não desejar cair nos braços do demônio
Mas como eu vacilo, mas como eu quero me deixar cair e me levar
Pelas forças alheias, pelas ondas desconhecidas do mar,
Por tudo que o vento possa carregar.
Vento que leva, leve minha existência que se arrasta com pesar
Minhas culpas, minhas más desculpas,
Meu perdões ingratos ressentidos,
Meus ódios esfriados ressequidos,
Meus calos ressecados,
Meus amores esquecidos,
Meus sonhos desavisados,
Meus sentimentos nus calados,
Tempo perdido, perdido - se iludir abandonado.
Preciso lembrar de parar de me sentir assim
Preciso parar de sonhar,
Parar de cantar, parar de ouvir pensar
De lembrar, de sentir mal sempre,
A dor no ventre,
O meu importar
De me importunar
De assistir TV
De pensar em você
E te amar sem te ter
Aqui.